ABRAÇAR A TRAPALHADA QUE SOMOS

 

Levante a mão quem nunca fez considerações sobre a vida alheia.

É uma relação pouco saudável
Não tem um plano
Anda à deriva
Já devia ter tido filhos
O que devia fazer era deixar de fumar
Come demasiado
Dorme até tarde
Não se esforça o suficiente
Quer o que é mais fácil
É demasiado boazinha
É uma cabra
Insensível
Flor de estufa
Não aguenta um não
Não sabe dizer que não

Eu cá deixei a minha quietinha. E pensava sobre isto quando reparei que ainda esta semana fiz isso. Uma aluna com problemas na lombar, queixava-se de dores. E eu, com a verdadeira intenção de ajudar (claro!), dizia-lhe: tens de fazer uma ou várias pranchas todos os dias.

Podia ter dito: “o que ajuda é tentares fazer uma prancha ou várias todos os dias”. Mas não. Porque eu sei o que pode ajudar. Eu tenho uma hérnia na lombar. Eu tenho certezas quanto a este assunto. Eu própria me debato todos os dias com a questão de precisar de fazer uma ou várias pranchas todos os dias.

Ai, nós e as nossas certezas.

Isto de avaliar a vida dos outros é a coisa mais fácil do mundo, não é? Não estamos lá. Sabemos lá nós o que sentimos. Portanto, em traços gerais, analisamos a questão com sentimentos à parte, e voilá. Temos a solução.

Ora presunção e água benta cheira-me
que todos usamos em demasia.

E eu, que ando com os azeites e portanto com a falta de paciência em alta,
irrita-me este tipo de frases. Eu própria me chateio comigo mesma quando elas me fogem da boca.

É certo que saber a experiência dos outros sobre algo que estejamos a passar é coisa boa. Há sempre quem nos possa ensinar algo. Sem dúvida. Mas não serão estas muitas certezas que pairam por aí a toda a hora que fazem com que nos sintamos na obrigação de viver perfeição?

Não serão frases como estas, que ouvimos por aí, que contribuem para nos sentirmos a falhar, em desordem, em completo fracasso por um lado, e por outro, tira-nos a capacidade de viver a vida plenamente: com tentativa e erro.

Esta relação, hoje, serve assim para mim. Amanhã logo se vê
Agora quero viver sem planos
Ando a surfar a vida
Vou deixar decisões como ter filhos, casar, etc., para depois
Agora fumo, amanhã logo se vê
Agora como muito, amanhã talvez faça desporto
Hoje apetece-me dormir até tarde
Não me apetece pensar, fazer, agir
Preciso que seja fácil
Quero fazer as coisas como acho que me fazem sentido
Sou humana e por isso às vezes também sou uma cabra
Tenho alturas que não sinto nada
Tenho fases que choro por tudo e por nada
Tenho dificuldades em lidar com um não
Assim como tenho dificuldades em dizer não
...

E amanhã logo se vê se continua assim ou não. 

Mas se há por aí alguém que saiba as regras todas deste jogo que é a vida, por favor entrem em contacto comigo e eu receberei as vossas certezas de coração aberto.

Entretanto vamos todos abraçar o que consideramos imperfeições nos outros e ao mesmo tempo estar disponíveis para ajudar e dar colo nas várias fases que são parte da vida. Sem julgamentos.

Afinal de contas, o que é viver se não
uma tremenda trapalhada PARA TODOS NÓS?