Preciso sentir a imperfeição

Eu não sou perfeita. E sinal da minha imperfeição é querer ser perfeita em todos os aspectos da minha vida. Pior, esperar perfeição dos outros e da vida.

Algumas das minhas imperfeições aguçaram com a doença. A impaciência, a minha necessidade de controlo e de arrumação. O não me sentir bem na minha pele. A ideia de que não construí nada e o facto de esperar que os outros estejam lá só para mim.

Passei a ser uma pessoa com pena de mim mesma por vezes. Ou muitas vezes. Demasiadas de certeza.

Acredito que não seja fácil viver comigo. Já não era porque sempre tive muito pêlo na venta. Agora não é porque deixei de ter pêlo na venta. Há mais pequena adversidade o meu mundo abana todo. Eu abano toda. E sinto-me sem chão.

Há uma teoria que diz que a causa provável
para a EM é o endurecimento mental, coração duro, vontade de ferro, inflexibilidade e medo. *

Quando li isto revi-me completamente. Não foi fácil, mas aceitei o facto.

Tenho a mania que sou uma mente aberta mas hoje em dia duvido muito disso. Analiso e vejo que sim, tenho o coração duro. Tenho uma vontade de ferro mas sou inflexível. E o medo? Medo, medo, medo.

Eu tenho vários medos. Para mim a cereja em cima do bolo é esta: tenho medo de perder tudo – casa, dinheiro, trabalho – e ficar perdida a viver na rua. Sem nada e sem ninguém. E este medo é real. Tão real que quando analiso a minha vida tenho isso presente. E dou passos com isso presente.

Uma terapia explicaria porquê. Eu já fiz, eu já rondei este assunto e tenho até umas pistas do porquê. A questão é esta: ter uma ideia do porquê não evita que isto aconteça. Posso dizer para mim mesma: lá estás tu, é aquele velho padrão e tu sabes porque é que acontece. Agora deixa-te de merdas e esquece lá isso. Mas no entretanto o medo está lá.

É isto, de perfeita tenho muito pouco e consigo em teoria achar que ainda bem. Em teoria. Porque depois sento-me aqui a escrever o que me vai no coração e na garganta e penso: olha que merda de texto. É isto que queres partilhar? Angústia, medo, sentimentos de tristeza? Encontra lá uma mensagem positiva. Assim a jeito de foto-perfeita-com-filtro-à-vida-do-instragam.

Só que não. Pelo menos hoje não.

Esta coisa de sermos positivos, felizes e esperançosos a toda a hora não é real. Acredito que podemos trabalhar nesse sentido. Devemos até. Ver o bom de qualquer desafio. Mas há dias de merda. Há alturas de merda. Há anos que são uma desgraça pegada. E sim, por vezes é preciso – até fisicamente – estarmos tristes, desanimados, zangados. Uma forma de limpeza ao corpo.

Lembro-me de me sentar no consultório da minha MJ depois do diagnóstico e fazer todo um discurso de quem está forte e pronta para lidar com isto. De quem está com esperança e aceita. Ela, boa que é no que faz, deu-me a volta e ao fim de 10 minutos de conversa eu estava num pranto e só dizia: é injusto. Isto é uma injustiça. Onde foi que eu fiz alguma coisa de mal para merecer isto?

Nunca obtive respostas. Mas chorei. Chorei muito esta injustiça. Ainda choro. Assumi que estava zangada com o que me aconteceu.

E acho que é isto que eu tenho falta.

De alguma forma sinto que vivi o último ano e meio a negar sentimentos e a chutar sempre a bola para a frente. A sacudir tristezas, a seguir caminho. Num estado de graça porque podia ser pior. A sentir-me vaidosa porque redesenhei a minha vida.

Tretas. Só tretas.

Não quero desvalorizar-me. Sei que tive um impulso positivo dada a desgraça. Eu olho à minha volta e sei que isto podia ser tudo muuuuito pior. Mas e então? Isso não invalida que isto é uma merda de uma doença, uma merda de destino e que há dias – muitos até – que nada parece ser bom e eu sinto-me mal.

Dias. Semanas. Meses. Talvez até anos ou uma vida.

Quero muito deixar de querer ser perfeita. Quero muito deixar de procurar perfeição nos outros, na vida. Quero muito tirar estes óculos do optimismo só porque sim e só porque vivemos tempos de filtros e mensagens de amor a toda a hora.

Não para sempre. Mas durante uns tempos.

Para me sentir tal como estou. Triste e zangada. Hoje sem esperança. Hoje sem saber para que lado me virar. Hoje desamparada. Hoje sem chão. Desanimada. Sentir que hoje sou isto. Algo muito longe de uma perfeição.


* CURE O SEU CORPO As causas mentais dos males físicos de Louise L. Hay