Ingrata

"ingrata"
(latim ingratus, -a, -um, desagradável, displicente, que não tem gratidão)
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Esta palavra tem soado na minha cabeça todo o dia de hoje. Ora sentida como dúvida, ora sentida como severa agressão... e ainda sem conclusão.

Considero-me uma pessoa grata. Faço o exercício de gratidão diário. Todos os dias no meu caderninho azul (lindo por sinal) que guardo na mesa de cabeceira e ao qual dei o título de Sono Grata, antes de deitar a cabeça na almofada escrevo aquilo porque sou grata.

A lista repete-se:

Sou grata pela saúde que tenho - dá-me vontade de rir mas confesso, sinto gratidão;
Sou grata pela minha família;
Sou grata pelo meu gajo;
Sou grata pelos privilégios que tenho;
Sou grata pelo meu conforto, a minha casa;
Sou grata pelos meus gatos;
Sou grata pelos meus alunos de Yoga e por poder dar aulas;
Sou grata pelo meu tempo...

É mais ou menos isto que se repete.

Depois há dias em que sou grata por poder andar e subir escadas. Sou grata pelo sol que senti na pele, sou grata por conseguir escrever, grata por ser independente, grata pelo banho que tomei, pela comida que comi, pelos amigos que tenho...

O grande desafio são os dias de merda. Como o de hoje aliás. Que irei eu escrever no meu Sono Grata? É que os dias de merda fazem com que tudo pareça uma merda. Tolda-nos a vista. Fecha-nos o coração. Dias de merda são tristeza e é na tristeza que a gratidão é mais difícil.

Já me aconteceu antes. Não sabia o que escrever.

E depois percebi - e senti, como aliás irei sentir hoje ao deitar - que há sempre algo que desperta gratidão. No limite hoje sou grata por viver. Mas se achar que isto é muito vago - que não é, diga-se de passagem - posso pensar em cada detalhe do meu dia e sei que há coisas pelas quais vou sentir o coração a vibrar. Coisas que me fizeram sentir bem, feliz, de coração cheio.

E no limite do limite, quando me deitar de caderninho na mão e sentir o conforto do meu colchão, os pés quentes e o sono a chegar - quando já não vai comigo - vou sentir-me grata por isso.

Porque mesmo quando o conforto é só físico e o coração continua partido, não deixo de ser uma privilegiada. E sou grata por isso.