Um brinde a 1 ano contigo

Faz hoje 1 ano que entrei na CUF de madrugada, depois de um fim de semana de retiro de yoga. Durante a semana já me sentia muito cansada, com dificuldades em andar, muitas dores de costas e péssima disposição. No final da semana tinha dificuldades em escrever e no retiro quase não fui capaz de pintar o meu madala ou escrever o meu nome.

Achei que estava simplesmente cansada. Mas sábado à noite comecei a ficar com a boca e a cara no lado direito dormentes. Depois passou. 

Não quis dar importância mas domingo, já em casa, decidi enviar um e-mail ao médico que me acompanha (o meu Dr. House) só por descargo de consciência. Ao jantar voltei a sentir dormência na cara e deixava cair o que tinha na mão direita.

Já passava da meia noite quando o meu telefone tocou. Era o meu dr. House para me dizer que devia ir para o hospital imediatamente. Ainda lhe perguntei se poderia ir só no dia a seguir de manhã. Não.

Lá fui, a arrastar-me. E lá fiquei.

No dia seguinte às 8h o médico da CUF já estava à minha cabeceira. Três hipóteses: AVC, tumor no cérebro ou EM. E das 3 vamos querer que seja EM, foram as palavras dele.

48h e alguns exames depois o diagnóstico parecia claro: EM. Era o diagnóstico mais fixe, certo? Eu só fui capaz de chorar e perguntar se ia morrer. Ele disse-me que disto não.

Naquele dia começou a grande viagem que se tornou a minha vida até agora. Não fazia ideia o que era ter EM. Não fazia ideia de nada. Lembro-me que passei os dias do hospital entre alguns ataques de choro (poucos) e outros de gargalhadas (muitos) - muito grata pelas drogras que me deram.

Foram 6 dias muito tranquilos para mim. Voltei para casa e aí sim percebi como o meu corpo estava. Dormi grande parte do tempo nos meses que se seguiram. Tinha dificuldades em falar, em andar. Tomei banho sentada no chão do meu duche, não conseguia lavar bem os dentes e estar sentada numa cadeira era difícil.

Quinze dias depois fui à consulta pós-internamento que oficializou o diagnóstico. E aí sim, fui-me abaixo. Não queria acreditar. Porquê eu? Vou ser um peso para a minha mãe, para o meu gajo? A cabeça ficou virada do avesso.

Tive momentos, confesso, que me passou pela cabeça que seria melhor morrer. Que disparate, não é? Suponho que seja normal o desespero com tamanha novidade. Tento não ser dura comigo mesma e desculpo este deslize.

Não sei quando foi mas a dada altura decidi que tinha de transformar isto em algo a meu favor. E tem sido um pouco esse o mantra que repito para mim mesma todos os dias. Nem sempre é fácil mas não me posso queixar.

Aprender a viver com esta minha nova amiga tem sido uma aventura. Há dias em que me chateia muito, em que fico mais em baixo. Felizmente são poucos.

Agora, um ano depois, recordo que me disseram, mais do que uma vez, que a hipótese de voltar a ter um outro surto nos meses que se seguiam era grande. Não aconteceu. A 23 de Agosto, 2 meses depois, no meu aniversário, pedi o desejo de 1 ano sem surtos. Cumpriu-se.

Ontem, com o meu gajo, brindámos a esta nova amiga que revolucionou as nossas vidas, mas principalmente brindámos a um ano de caminho para a frente e sem acidentes de maior. Desejei mais 12 meses sem surtos.

Se há coisa que aprendi foi a valorizar um dia de cada vez. Momento a momento. A apreciar muito aqueles em que me sinto bem e a estar tranquila nos mais dificeis. Porque passa. Esta minha amiga ensinou-me que a vida é maravilhosa mas que temos de estar atentos. E eu estou. E cada dia que acordo agradeço o meu corpo funcionar, conseguir andar e falar. Agradeço cada prática de yoga, cada momentos de paz. Agradeço todos aqueles que tenho à miha volta, a minha família, os meus amigos. Os meus gatos. Valorizo mais e o que não valorizo naturalmente, faço por isso.

Um ano desta nova amiga EM. Xim-xim