O que lixa isto é o dinheiro

Sei que isto não é novidade. Já tinha uma ideia. Mas tenho pensado muito sobre isto. Sobre o querer fazer coisas mas ter de pensar no dinheiro que elas dão. E isso é uma merda. Idealmente faríamos só coisas de que gostamos - por amor - sem pensar nos lucros. Mas isso é só mesmo isso, um ideal.

E sinto muito isso quanto ao Yoga diz respeito. Idealmente eu oferecia às pessoas o momento e o espaço para praticarem, sem que isso envolvesse dinheiro. Mas eu preciso pagar contas. E também sei que é justo (porque é justo), ser recompensada pelo meu trabalho.

Ainda assim fico aqui a matutar. Dividida entre abrir a porta do meu espaço e oferecer o meu tempo só porque sim ou receber dinheiro em troca.

Eu sei que isto é um dilema que eu preciso de trabalhar, e que provavelmente levará tempo até que eu me sinta confortável. Veremos. Até lá, não perco de vista o facto de ser uma sortuda e neste momento da vida poder dar-me ao luxo de projectar algumas coisas que não tenham como fim o dinheiro - este espaço aqui por exemplo e o tempo que lhe dedico.

E esta também foi uma das razões que cheguei à hipótese de dar aulas na SPEM.

Foi um acaso - ou não. Numa reunião com a assistente social para tirar dúvidas sobre os meus direitos enquanto portador de EM veio à conversa a minha formação de instrutura. Assim como veio à baila a pergunta: porquê é que a Ana não partilha com outros com EM a sua experiência?

Isto porque a minha experiência disse-me que o Yoga é um grande aliado a quem tem esta doença, a nível preventivo mas muito ao nível da recuperação de surtos. Não é à toa que nos corredores das consultas de EM está um cartaz com recomendação de exercícios que são na sua essência exercícios de Yoga.

Mais. Se o Yoga for praticado em toda a sua dimensão, temos ferramentas para lidar com os sintomas de tristeza, derrota e dúvida que esta doença também nos dá. Entre muitas outras coisas.

E assim cheguei onde queria estar: facilitar aulas de yoga a troco de ajudar. Somente ajudar (*).

Não sendo possível fazer disto a minha vida, ao menos uma parte dela é. Mas atenção, aqui também há egoísmo. Acredito que ao partilhar e dar oportunidade de doentes com EM conhecerem os benefícios do Yoga, estou a preencher-me, a realizar-me. E isso dá-me felicidade. E a felicidade dá-me saúde. Não sou totalmente altruísta.

Sou sim neste momento uma pessoa muito satisfeita. Consegui uma parte da minha vida - muito importante - onde o dinheiro não conta mas sim só o que eu quero e gosto de fazer.

Sim, o dinheiro lixa isto muitas vezes. É por essas e por outras que temos de dar a volta à situação. Na esperança que não lixe totalmente aquilo que somos.

(*) Aulas de Yoga Integral para portadores de EM, familiares e cuidadores - Sexta-feira dia 07 às 15h00 na SPEM