O meu corpo mudou

As boas notícias é que passei o melhor inverno da minha vida.
As más notícias são que temo pelo verão.

Avisaram-me logo, o verão é uma época má. Se por um lado apanhar sol é óptimo, por outro os doentes com EM têm pouca tolerância ao calor. E eu confirmo. Assim que o sol por aqui apertou, senti logo a minha falta de paciência. É incrível, mas fico mesmo de mau humor e com grande dificuldade em domesticá-lo.

Por outro lado, adorei o inverno. Não cheguei nunca a calçar meias e por baixo do meu casacão de penas usei pouco mais do que duas camisolas de algodão. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que senti frio.

Mas não fica por aqui.

A somar aos sintomas de menopausa precoce, passei a ter um sono urgente e passei a ter muita dificuldade em acordar. Quando digo que a pilha acabou, acabou mesmo. Em piloto automático escovo os dentes e visto o pijama. Estou convencida que muitas vezes antes mesmo de deitar a cabeça na almofada já estou a dormir.

E o acordar tornou-se um pesadelo. Acordo mas não consigo funcionar. Aos tombos pela casa tento despertar e agora que faço caminhadas em jejum, quere-me parecer que sou como zombie pela cidade.

E também não fica por aqui.

Tudo passou a ser calmo mas ao mesmo tempo urgente. O xixi, a fome, a sede... tornei-me aquela pessoa chata que parece não ter paciência para nada. Mas não é verdade, eu tenho e tento pô-la em prática. A questão é que o meu corpo queixa-se de não ser imediatamente atendido.

Quando existe, fome, sede ou xixi e essas necessidades não são imediatamente asseguradas, o meu corpo começa a despertar os sinais do surto. Dormência na boca, ponta dos dedos, muito desiquilíbrio... não há como enganá-lo e tudo passa a ser para 'já!'.

Eu tenho a curiosidade de estudar estas mudanças em mim, mas por vezes sinto-me aborrecida. Parece que se tornou um corpo estranho que tem de ter o meu cuidado.

O que não está muito longe do que deveria ser sempre, no que ao cuidado diz respeito. Seja como for, as mudanças são estas, eu estou a habituar-me e ao mesmo tempo - e principalmente - a descobrir que posso amar este corpo e esta cabeça com todas as diferenças. Doença incluída.