Carta à D.

Querida amiga, sei bem o que passas, o que sentes. Acredita. Passei por isso durante anos na minha vida. O Medo tomou conta dela. Dizia-me o que eu podia ou não fazer. Obrigava-me muitas vezes a ficar quieta, calada, fechada. A tomar decisões erradas. Um dia comecei a pensar o que era esse Medo. Quem era. Porque estava aqui comigo?

Ele representava as dúvidas que eu tinha de mim mesma, a falta de confiança e até a falta de fé. Ele representava o que eu achava ser o que as pessoas esperavam de mim. Representava andar na linha, seja lá o que isso for, o receio que os outros não gostassem de mim, o receio que eu não fosse ao encontro das expectativas dos outros. Também representava o receio de haver uma desgraça, com a vida, com o mundo.

Qualquer coisa como receio de o céu cair.

Aposto que estás a sorrir. Mas aproveita para ver que no meu discurso era tudo sobre os outros e nada sobre mim. Acontece-te a ti?

Foi aqui que descobri que ele - o Medo - se tinha alojado em mim porque eu não me amava de verdade. Não me respeitava, não confiava, não tinha fé. E por último, queria controlar tudo.

Estava concentrada no exterior e em nada no meu interior. Quem sou eu? Quem és tu?

Vou usar-me das palavras de Chaplin para te dizer o que digo a mim mesma todos os dias pela manhã: Se te amares de verdade, compreenderás que em qualquer circunstância, estás no lugar certo, na hora certa, no momento exacto. (Não me canso disto)

O mundo, o Universo é perfeito. Nisso podes confiar. Até mesmo nas coisas menos boas ele ensina-nos algo valioso. Torna-te amiga desse medo. Deixa-o conviver contigo, não tem mal, és humana.  Grita ao mundo que ele vive contigo e não tenhas vergonha disso.

Cumprimenta-o pela manhã e dá-lhe um beijo de boa-noite. Mostra-lhe que és tu que mandas porque te amas, tal qual és.

Ele vai ficar completamente desarmado.

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Obrigada Jessica pela tua mensagem. Acho que poderíamos fazer um grupo de ansiosas com encontros marcados só para nos rirmos do medo. Acho que ele iria gostar.