Sem a palavra certa

A saga dos dias menos bons continua. Nem sempre sou forte. Este fim de semana voltei a ter um ataque de choro e de perguntas enviadas ao Universo: porquê? porquê eu? E cheguei mesmo a dizer em voz alta 'assim não quero continuar a viver'. Com isso ganhei ir almoçar fora - coisas do meu gajo.

E fez-me bem. E depois optei por não ficar em casa e acabei às compras com a minha mãe e a beber um drink. E também isso fez-me bem.

Nem todos os dias são de vitória. Há dias em que acordo com as mazelas mais acentuadas sendo que a pior de todas é a sensação de desiquílibrio e sentir que tenho a cabeça dentro de um penico. Pareço uma bêbeda sem a animação dos copos. É difícil explicar, às vezes até a mim mesma. Fico derrotada quando assim é.

Sei por experiência que depois passa e chegam dias de vitória mas até lá custa. Tento normalizar mas andar na rua é difícil, estar em sítios barulhentos e com muitos estimulos visuais é complicado. E depois há aquela coisa que tenho evitado falar mas que está lá: sinto-me menos mulher.

A falta de energia não me permite cuidar de mim como antes. Não tenho capacidade visual e o cansaço trama-me. A atenção toda aplicada a viver positivamente deu lugar na verdade a sobreviver aos dias e... confesso tenho saudades de mim como era antes.

Esta doença tem esta coisa de lidarmos com a velhice precocemente. As dificuldades de locomoção, a incapacidade de estar em lugares barulhentos, as dores no corpo... e eu só me lembro que tenho 39 anos - só 39 - mas sinto-me com 80.

E esta velhice precoce faz-me sentir menos mulher. É só isto, sinto-me menos mulher. Hoje não tenho nada de animador para me dizer.