Começar a viver aos 40

Ontem fui proprietária de um alojamento local, designer gráfica para um casamento, fui dona de casa, fui mestre-de-obras e resolvi detalhes de uma estante de madeira. Fui gerente de um centro de yoga e terminei o dia a dar aulas.

Se tudo desse dinheiro, estaria uma mulher rica. Em vez disso, e embora cansada, dá-me a certeza das mil coisas que podemos fazer ao mesmo tempo na vida. E isso faz de mim uma mulher muito rica. Milionária, até.

E foi bom ter reparado nisto agora. Hoje acordei a fazer 41 anos e esta coisa de fazer 40 pesa-me desde os 39.

Os meus 39 coincidiram com o diagnóstico. Nesse ano a minha vida tal como a conhecia virou-se de pernas para o ar. Mais do que lidar com uma doença crónica, foi perceber as suas limitações. E foi logo claro que a vida profissional que tinha tido até ali, não seria possível - para bem da minha saúde por um lado e porque não conseguia mesmo, por outro.

Portanto, já não bastava o peso de me aproximar vertiginosamente dos 40 e lidar com tudo o que isso implica (nem que seja só da nossa cabeça), como foi ter de considerar que eu estaria limitada a partir dali.

O que iria fazer profissionalmente? Quem era eu agora? Que tipo de mulher? Que vida iria ter? Que projectos poderia abraçar? Ter filhos? Qual o meio de subsistência? Ficaria dependente?

Dois anos depois, estou a fazer 41, a minha cabeça continua sempre com dúvidas e medos mas olho para a minha agenda e vejo o espelho de alguém com uma vida muito preenchida e cheia de projectos diferentes.

Lido com as minhas limitações todos os dias. Não consigo fazer uma jornada de trabalho como qualquer outra pessoa na casa dos 40. Mas, fico feliz de constatar que ainda consigo fazer, pensar, projectar. Fazer acontecer.

Não é nada que me dê um salário fixo ao fim do mês - aquela falsa sensação de segurança que temos quando somos empregados de uma empresa. Mas, dá-me uma sensação de preenchimento que nunca tive até aqui. Deixei, junto com a Ana aparentemente saudável, uma vida de cumprir tarefas para alguém, em modo zombie.

De certo modo, ao pensar sobre isto enquanto faço 41 vejo que esta coisa da idade é só mesmo uma limitação da nossa cabeça. Assim como a doença. Mais do que as limitações que uma doença pode dar, o que pesa são as limitações que nós colocamos na nossa cabeça com a desculpa da doença.

Mais do que pensar ‘como tenho isto, não posso fazer aquilo’, é preciso perguntar ‘ok, eu agora estou assim, o que posso fazer a partir daqui?’.

Escrevo isto somente para me lembrar disso. Não sou especial. Faço o malabarismo diário de pesar quais são as limitações que a minha mente me está a impor por oposição àquelas que são realmente reais – por exemplo dormir.

Nada disto é diferente para o resto das pessoas. É o que todos nós fazemos todos os dias: malabarismos. Pesar num lado o que queremos ou precisamos fazer e pesar no outro aquilo que somos realmente capazes de fazer sem pôr em risco a nossa saúde física e mental.

Julgo que talvez a única diferença para mim é que quando piso o risco, o meu corpo não me dá tréguas. E tal qual uma criança com birra, senta-se no chão aos gritos e a chorar. Não há como ignorar.

Nessas alturas vou-me abaixo. Concentro-me nas limitações que posso ter. Desanimo. E entro naquele turbilhão de pensamento que me diz: estás a ficar velha.

E depois claro, no dia em que acordo a fazer 41 só penso: porra estás mesmo a ficar velha!

O ser humano é óptimo a boicotar a sua própria felicidade e eu não sou excepção. Dou por mim a pensar ‘mas onde foram parar os meus 30? O que foi que andei a fazer que parece que não existiram?’. Ahhh não te lembras? Os meus 30 foram passados como zombie a cumprir tarefas para uma empresa, alguma parte sentada no trânsito, outra no supermercado. 1 ou 2 horas por dia frente à televisão supostamente a ‘descansar o cérebro’...

Foram principalmente passados a ‘levar a vida’.

E agora é isto. Os meus  41 + a EM fazem muito e dão trabalho. Mas se há coisa que não fazem é isto ‘levar a vida’. Cada segundo do meu dia é – e tem mesmo de ser – consciente, pensado e ponderado. Cada projecto que escolho fazer não é porque tem de ser mas é porque gosto e quero fazer.

Quem sabe esta coisa de ser velha é isso mesmo: parar de simplesmente levar a vida e passar a viver?

Eu não sei responder a isso, acabei de chegar. É tudo novo e diferente. Mas, para aqueles que vêm atrás posso assegurar-vos isto: esta pode muito bem ser a etapa de maior realização das nossas vidas. Suponho que basta estarmos atentos e realmente viver.