Dois anos a mudar o meu mundo

Hoje acordei com o meu gajo a dar-me os parabéns de 2 anos com esta minha amiga. E apoderou-se de mim uma grande tristeza.

Eu sei que as felicitações se devem ao facto de ele achar que eu levo isto muito bem e que para todos os efeitos, a minha vida melhorou. E melhorou.

Melhorou?

É diferente. Faço o que amo de paixão. Deixei aquela vida de stress e de falta de ar de uma redacção. Como e durmo melhor. Tenho tempo para mim. Cuido-me: corpo, mente e espírito. Mas todos os dias quando acordo, acordo expectante sobre como me sinto.

Sento-me no sofá, bebo café e anoto no meu diário de bordo cada sintoma e a escala desse sintoma. Anoto o que comi, o que fiz, o que foi diferente, anoto o ciclo menstrual e até como está o tempo - o tempo influencia e não é pouco. Anoto a qualidade das minhas fezes!

Melhorou?

É diferente. E eu sinto-me diferente do mundo, das pessoas. Sinto que carrego esta amiga nos ombros todos os dias. Sinto que tenho de estar sempre atenta a ela. Do que ela gosta, do que não gosta, como se sente melhor. Cada pedaço da minha vida é sobre ela e já muito pouco sobre mim.

Tenho melhor qualidade de vida. Sou bem capaz de ter mais saúde agora do que tinha antes mas ela está lá todos os dias como se esperasse que eu cometesse um erro para me castigar. Ou pelo menos é assim que eu sinto.

Sim, a minha vida melhorou mas não estou certa se o que faço é por mim ou por ela e isso deixa-me numa prisão virtual.

Vejamos. Acordo quando o mundo ainda dorme e vou dormir quando a festa começa. Como diferente de todos aqueles que se sentam à mesa comigo. Posso combinar um programa e logo a seguir o meu cansaço não me permitir fazê-lo. Evito confusões porque o meu corpo não fica feliz. Sinto-me envelhecida e noto a cada caminhada e quando subo escadas - um dia bom para mim é quando não uso o corrimão a descer escadas. Jantar comigo é sentar à mesa às 19h30 – quem é que tem vida para jantar às sete da tarde?

Em cima de tudo isto, os sintomas da EM são praticamente invisíveis ao olho humano - excepto quando já estamos numa cadeira de rodas. O cansaço pode ser visto como preguiça. Passo grande parte do meu tempo entre sessões de massagem, acupunctura, reiki, aulas de yoga como aluna e agora até fisioterapia.

Sou uma verdadeira dondoca - aposto que é o que estás a pensar – e isso em teoria até poderia ser bom, não fosse eu sentir-me carta fora do baralho, muito embora seja muito grata por todas estas ajudas.

Faz hoje dois anos que fui internada com o que poderia ser um AVC, um tumor cerebral ou EM – vamos torcer para que seja EM, palavras do médico. Eu não torci e no dia seguinte lá estava o (bom) diagnóstico: esclerose múltipla. Vou morrer? Ele riu-se e disse-me sim, mas não disto.

A melhor forma que tenho para explicar como me sinto é esta: faz hoje dois anos que dei entrada no hospital com o lado direito comprometido. Não conseguia escrever, arrastava o pé, falava arrastado e tinha a cara dormente. Depois de exames e de uma semana internada a fazer tratamento com corticoides, fui oficialmente diagnosticada com EM. Quando tive alta e fui para casa é que compreendi a verdadeira dimensão do meu estado físico. No mês que se seguiu compreendi a verdadeira dimensão do meu estado psicológico. E até hoje, estou a tentar compreender toda a nova dimensão da minha vida.

Para mim, quando o médico – um querido! – me disse que tinha EM, o que realmente me disse foi isto:

Estás a ver a vida lá fora? As pessoas todas de um lado para o outro a fazerem as suas vidas normais, com empregos activos e stressantes, a marcarem férias com viagens para sítios longínquos? Estás a ver as pessoas a fazerem programas de jantaradas com vinho, queijos e amigos até às tantas da manhã? Idas a concertos e festivais de verão? Idas à praia e ao campo que começam de manhã e acabam com petiscos ao final de um dia de verão? Estás a ver este corre-corre para ir buscar os putos à escola, ir ao supermercado, fazer o jantar e depois sentar no sofá para ver um filme até às tantas da manhã e acordar cedo para ir trabalhar quase logo a seguir?

Estás a ver toda esta energia a acontecer?
Para ti, não vai ser possível brincares com estes meninos.

É isto. Em termos qualificativo a minha vida mudou para melhor.
Mas este, é um lugar solitário.